Porto by Night – Unfinished Business

Um rápido puxão e a cortina de metal deslizou rapidamente pelas calhas ferrugentas, soltando um zumbido estridente.

O lojista ponderou os acontecimentos da semana transacta – roubos, assassinatos, explosões no porto de Leça e até um incêndio em Serralves. A cidade estava a enlouquecer. Era muito estranha, muito estranha, a passividade de quem deveria estar a manter a ordem. Mas era ainda mais estranho que ninguém o tivesse vindo visitar à sua loja de banda desenhada e artigos festivos.

A cortina deteve-se com um estrondo e o som ecoou pelos corredores vazios, demorando a extinguir-se nas profundezas da galeria comercial mal iluminada que, hoje, cheirava pior que de costume.

“Mas será, realmente? Assim tão estranho?”, pensou. Já não eram os anos oitenta. Olhou para baixo, para os pés. Antigamente tê-los-ia visto, mas agora eram escondidos pela camisola, inchada como um balão. Deu uma leve palmada no estômago e esboçou um esgar, que de sorriso tinha pouco. Como o tempo passava. Como os clichés se concretizavam. Abanou a cabeça.

Com o tilintar de chaves e um estalido, a fechadura ficou trancada. A cortina não subiria de novo até à tarde do dia seguinte. Disso o lojista tinha a certeza. Não parecia, mas era uma estrutura altamente reforçada.

Contemplou a soma da sua vida. Tinha tomado conta da loja aos trinta anos, pensando tratar-se de um grande negócio. Sempre tinha gostado de banda desenhada, portanto que melhor ideia que fazer disso vida? Trabalharia ali sozinho para começar, depois empregaria ajudantes e finalmente expandiria para outros locais. Em menos de dez anos teria liberdade financeira e poderia dedicar-se aos seus outros interesses no abundante tempo livre. Se perguntassem ao lojista onde exactamente é que esse plano tinha corrido mal, ele não saberia dizer. Não havia um momento ao qual fosse óbvio apontar o dedo e dizer “foi aqui”.

Suspirou. Tudo que tinha havido era uma inocente sucessão de dias, todos iguais uns aos outros. Dias que, individualmente inofensivos, tinham-se acumulado rapidamente e, de alguma forma, resultado num grande e assustador monstro feito de tempo e desapontamento. O lojista tinha hoje quase sessenta anos. Sem filhos, e com plena consciência de que a loja na galeria moribunda estava a pouco tempo de desaparecer, não deixaria grande legado.

Olhou para a esquerda, por cima do ombro, na direcção de uma montra esparsamente povoada por caixas velhas de videojogos. Sim, o mundo tinha mudado muito. Já quase ninguém vinha à sua loja pela banda desenhada, pelas figuras articuladas ou pelos jogos de tabuleiro. O pouco que vendia era pela internet, e os magros lucros disso ainda tinham que ser partilhados com o rapaz que lhe tratava da página, ou site, ou lá como se chamava aquilo. Se não fosse pelos artigos festivos, particularmente os pirotécnicos, estaria a viver em Passos Manuel dentro de uma caixa de cartão.

Um passo ligeiro, denunciado pelo mais leve dos sons, arrancou-o da contemplação e atirou-o de volta à realidade. Tinha aprendido a estar atento, graças aos clientes que não lhe visitavam a loja pelos super heróis. Num piscar de olhos, levou a mão ao interior do sobretudo e soltou a mola do coldre que sempre o acompanhava. Agarrou a coronha e virou-se para a direita, de onde ouvira o passo. Deu com duas figuras de pé à sua frente, nem a três metros de distância. Um fedor a carne podre invadiu-lhe as narinas.

Sentiu os pêlos da nuca a eriçarem-se. Estava habituado a receber gente muito esquisita, mas estes dois pareciam saídos da selva. Roupas escuras todas rasgadas, manchadas de vermelho enferrujado, revelavam uma variedade de cortes, escoriações e feridas abertas. E aquele cheiro? Revoltava o estômago. Teve que fazer um grande esforço para não vomitar ali mesmo. Moveu os pés para manter o equilíbrio, vacilou e encostou-se à cortina de metal em busca de apoio. Olhou melhor para os seus inesperados visitantes, que não se mexiam.

Um era moreno, de estatura média, e olhava-o com interesse. A outra, apoiada com evidente dificuldade no seu braço, era uma loira platinada cujo cabelo extremamente longo e sujo cobria o rosto. Os dedos finos e longos da sua mão direita eram brancos como giz e terminavam em unhas de um vermelho demasiado vivo. Tinha-as cravadas no braço do ajudante com o que parecia a última força que lhe restava. Como é que aqueles dois tinham conseguido aproximar-se dele sem fazer qualquer barulho, o lojista não percebia. Contudo, à excepção daquele último passo, permaneciam completamente silenciosos. E aquele cheiro, seria ele o único a senti-lo?

O vistante desviou subitamente o olhar do lojista e concentrou-se na mulher que acompanhava. O lojista também a fixou, cativado por uma qualquer atracção irresistível. Vou-a levantar a custo a cabeça, o cabelo pastoso apartando-se ligeiramente, revelando um rosto assustador. A pele, de um branco marmóreo, era oleosa e atravessada por veias como varizes, muito evidentes e muito azuis. Os olhos que o fitavam, apesar de negros e encovados, brilhavam intensamente e havia neles um ar de reconhecimento. O lojista largou a arma e abriu a boca para falar. A voz falhou-lhe. Aquela mulher, ele conhecia-a. Conhecia-a muito bem e há muito tempo. Mas nunca a tinha visto assim, naquele estado. Tinha dificuldade em crer nos próprios olhos. Mas não havia dúvida, era ela.

“Ângela!”, exclamou por fim. Ela esboçou um sorriso que, revelando dentes amarelados e pontiagudos entre lábios finos e negros era mais assustador que amistoso, e respondeu numa voz áspera e muito sumida.
“Olá, Pistolas.”

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